O que há pra hoje?

POESIA COLABORATIVA
Suor. Espaço de exercício poético e livre escrita...

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Fotografia sonora

Um dorso,
um fosso,
num passo,
uma dor no osso
uma pausa de semínima,
um traço.

Havia, no entanto, um sorriso escuso,
riso de soslaio.

Na foto antiga, velha, gasta pelo tempo.
Um felicidade morta gritava num agudo finíssimo.
Bastava que se olhasse para o velho retrato.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Na bandeja - cabeça, ouro e diamantes


Para mostrar do que era capaz, se prestava a qualquer atitude, sem a menor sensatez.

"Ele" estava sempre com uma melhor amiga: "Ela".
Eram amigos.
Naquele dia, em específico, ficaram na garagem de casa, conversando putaria e assistindo ao trator que estava estacionado em frente a casa do vizinho. Que inusitado. Quem imaginaria? Um trator.
Era isso. Os dois não duvidavam mais de nada.
Tudo parecia morno, bucólico e silencioso demais diante daquele trator enorme que repousava calmo, adormecido, do outro lado da rua.

Mas a calma fora abalada.

Eis que passa por "Ele" e por "Ela", ali, de súbito, um homem lindo, lindo e musical:

toc, toc, toc, toc... (faziam seus passos nas velhas ruas de pedra do lugar)

Silêncio sepulcral.

Que inusitado. Quem imaginaria um homem lindo daquele, Apolo cruzando a rua daquele jeito? Sem pedir licença, ou avisar.

"Ele" acompanha musical astro da noite, apenas com o olhar.

toc, toc, toc, toc... (faziam seus passos nas velhas ruas de pedra do lugar)

Já "Ela"! Hum!
"Ela", entratanto, encanta-se com a musicalidade sonora dos passos ritmados do Apolo/Boto cor de rosa. Fica completamente seduzida pelo canto da sereia.
Embriagada, se entorpece com o som e com o perfume prenhe de testosterona.
Curiosa, curva-se por sobre a grade de lanças de que era feito o portão da garagem.

SLAP!

Fora Decapitada!

"Ele" abriu repentinamente a grade do portão.
Fatal!
Pobre "Ela".
"Ele" arrancou a cabeça da amiga.

"Ele" ainda pensou em se desesperar e sentir uma profunda culpa.
Como já não havia o que fazer... resolveu servi-la: a cabeça.

Mas "Ele" esperou para servir.
Só se sentiu à vontade para servir a cabeça, de fato, a todos, quando pôde exercitar sua erudição na composição do prato. Sofisticadamente "Ele" ofertou aquele crânio apetitoso, a cabeça-amiga, num especial jantar, dado em casa. Jantar oferecido ao seu pior inimigo.
"Ele" servira a cabeça de "Ela" como prato principal, numa bandeja de ouro e diamantes.
Eis que todos reconheciam: - "Diamantes lindos, os da bandeja".





terça-feira, 23 de agosto de 2011

crise de abstinência



Cocaína?
Que cocaína!
queria mesmo
era cheirar o pescoço
da menina.

Outra droga?
não há outra
melhor que te saborear
e dar beijo na boca.

Fumar broto?
tanto faz
Bom mesmo é estar perto daquele rapaz.

sábado, 20 de agosto de 2011

Premências;Desvelos...insurgências... Gritos de um silêncio a dois

É isso! Um pequeno excerto, dito de tanta coisa. Ele mesmo, catalisador de tantas outras tão maiores. Quando estamos felizes, sei que realmente não é fácil entender ou segurar porque o outro simplesmente não está. E assim, impacientamo-nos com aquele outro que "está sempre mal, que vai sempre dizer que não tá bem". Sei bem como é essa sensação e você sabe o quanto eu sei.

De qualquer forma, a quem está bem recai uma enorme responsabilidade. A felicidade não se dá gratuitamente. Exige sempre de nós. Ao infeliz, há sempre o recanto dessa infelicidade a de certo modo protegê-lo. E foi não me furtando a essa felicidade que eu sempre cuidei pra que minha felicidade não fosse um ofensa à infelicidade de ninguém, mas antes, um estímulo, um impulso a um olhar diferenciado à própria mazela de quem me destinava o olhar.

A minha preocupação foi sempre que a minha felicidade não me conduzisse a ingerência de um egoísmo capaz de me tornar maior que os outros com suas dores, fossem elas plausíveis ou descartáveis, mas sempre LEGÍTIMAS. E é fato, tenho em mim, nas qualidades que são essenciais, uma enorme alegria em compartilhar felicidades alheias ainda que não atingido por elas ou que esteja tomado por certas melancolias. Não sou melancólico e, por isso, ainda luto contra essa condição nova, e, quase sempre, com as armas erradas, o que me torna incompreendido e transito da melancolia à infelicidade experimentada.

Meus cansaços não são mais os do tédio como outrora, mas o da perspectiva interrompida, o da exigência frequente de ser otimista como própria condição de vida; da luta persistente pra ser melhor onde ainda não alcancei; fosse eu apenas professor, pudesse eu restringir-me apenas a ser amigo, quisesse eu ser apenas amante e, eu seria um tipo iluminado espiritual superior. A questão é que dispus-me também a ser amor e , essa avaliação será sempre do outro a quem submetemos. Quero dar muito e não tenho esse tanto a oferecer. E o tanto que solicitamente entrego será sempre pouco.

Conheço o meu risco; compreendi a minha capacidade incrível de ferir e machucar e, por isso mesmo, tantas vezes recolhi-me ao silêncio, outras tantas às repetitivas desculpas.
Se eu pudesse escolher qualquer pedido, eu escolheria viver e, em grande parte, isso tem a ver com viver você. Se ainda me restasse outro pedido, pediria que fosse você no meu viver ( que já tenho mas não estou tão certo); e se uma última benesse ainda se apresentasse, desejaria ser compreendido, ou nada valeria (ou valerá) viver (COM VOCÊ).

Da sua voz ao telefone - que em nosso caso substituiu tanto o olhar, a expressão corporal - desapareceu o ímpeto misturado a uma respiração apressada. Pudesse eu escolher, teria de volta aquele tom inquisidor, pois com ele tantas vezes tive também o gracejo entregue sem dificuldade. O que fica nessa voz agora é o tom do dito com que se diz qualquer coisa a qualquer um. Fui eu mesmo quem sempre disse que estava preparado para as mudanças, porque paixão não pode durar mais que nosso cérebro suporte. Mas também conheço bem os meandros de falas amorosas, em que impera uma certa ternura, uma grandiosa segurança e uma maior ainda capacidade discernida de cuidar.

Já há tempos tenho sentido os minutos diminuírem, o relato do cotidiano tornar-se corriqueiro e parece não mais imprescindível, e a satisfação deixou de ser interesse para tornar-se uma notificação. Sinto falta da felicidade maior compartilhada. Ouvi tantas vezes o tão bem descrito sofrimento que aprendi a compreendê-lo com esmero.

Com você experimentei e acumulei dores que não compartilhei com ninguém. Fiz com que elas fossem esquecidas pra que eu não me sufocasse em melancolia. Não escapei. Se desses motivos, outros acabaram por se apresentar. Tenho me sentido pouco compreendido, ou, você tem mostrado-se pouco didático em mostrar sua compreensão. Ainda ecoa em meus ouvidos a espontaneidade que outrora era do eu te amo e do quanto você é lindo pela impaciência punhalesca do "nunca atende", do "é isso", do "vai dizer que ta mal, sempre diz". Parece que isso é mesmo muito maior também pra você do que sexo casual, ou repetido, ou mentido, ou promessas vãs! Também imagino que deva ser mais fácil viver com o mentiroso cúmplice, com o canalha gostoso, com o safado carinhoso, do que com o amor entediante porque sofre, porque cansa-se, porque transfere dor, porque morre.

Deve ter sido mais simples ontem não ter ligado, ter desligado o celular, ter não se inclinado a responder a mensagem, ter dispensado boa noite, ter não se importado com por onde o outro leva sua dor. Eu simplesmente não cheguei a esse estágio ainda. Não cansei. Não consigo utilizar a indiferença; ainda perco o sono, ainda perco a paz se não há paz contigo. Consigo encontrar conforto, consolo, iluminação onde jamais esperei dividir. Alivia, mas não suspende a dor. Essa depende de um acerto que não cabe terceiros, a não ser que seja ajuda profissional. Me perdoe, por ter te tornado alvo de minhas dores todas. Deve sim ser insuportável depois de um tempo carregá-las sozinho.

Era isso, foram essas coisas que me vieram a cabeça por uma noite inteira, que ainda estão aqui. Estou certo que você precisava não me ter essa noite, por isso não houve contato, resposta, procura ou cuidado. Vai ver, é do mesmo que eu preciso.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Sou Junto

Eu:
aquilo quando estou só.
aquilo que sou com cada um.
aquilo que roubam de mim.
aquilo que me inspiram.
aquilo que me atribuem.
aquilo que contesto.
aquilo que intuo.
aquilo que como.
aquilo que evacuo.
aquilo que leio.
aquilo que ignoro.
aquilo que pago.
aquilo que me é inacessível.
aquilo que desejo.
aquilo que visto.
aquilo que sou quando me desnudo.
o que me basta.
o que me resta.
o meu avesso.
posto que sou tantos
e único.


quarta-feira, 3 de agosto de 2011

A repetição enquanto terapia

Por um momento... esteve sim... estarrecido, confesso.

A realidade caiu-lhe sobre a cabeça tal qual uma bigorna.

E assim com os miolos espremidos concluiu pesaroso:

- É, a vida está aí.


A realidade caiu-lhe sobre a cabeça tal qual uma pianola antiga.

Partiu-lhe a fronte ao meio... não lhe fora de todo ruim...

deu-lhe um arejamento, possibilitou uma entrada de novos ares.

E assim - com os miolos frescos - concluiu:

- É, a vida está aí.


A realidade caiu-lhe sobre a cabeça tal qual uma pluma.

Podia não ter feito nada

mas fez cocegas.


E a realidade caiu?

como assim, caiu?

e por acaso ela andava suspensa?

Sorte de quem acredita em poetas, metáforas e balões.