O que há pra hoje?

POESIA COLABORATIVA
Suor. Espaço de exercício poético e livre escrita...

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Sem pistas

Olhei em volta já no finalzinho - só constatei que realmente estava tudo errado - e como modo de render-lhe alguma misericórdia pensei:
- É, talvez seja 'eu' o problema. Devia pedir deesculpas.
Apenas pensei nessa subordinação, depois percebi que era puro delírio.
julguei-me péssimo.
Olhei outra vez em seus olhos, dei-lha um beijo de adeus e parti sem deixar rastro, perfume ou notícia.

Insensível

Me viu chorar soluçando.
Olhou pro lado, achou normal, fez um muxoxo e voltou a dormir o delicado e indiferente sonho dos anjos.

Diante de um vinho seco tinto

Me coloquei diante de uma grande adega....
Embriaguei-me o quanto pude...
Vesti meu vestido vermelho rendado...
Tomei todo aquele vinho dulcíssimo...
e dancei ciranda até o dia clarear...
Foi quando deu-se meu desencantamento.

A última canção

Era assim....
Cheio de agradecimentos.
A tudo agradecia,
Fazia o que fazia, mas davam-lhe os descontos.
Pediu a vez.
Ao invés de falar fez o que mais gostava de fazer... cantou.
Cantou e era aquele seu modo de dizer adeus.

Ausente

Na hora mais decisiva, quis tirar meu som da dor.
Era preciso coragem.
Busquei a dor - era golpe certeiro.
Falhei.
Cadê a danada?
A dor tinha sumido e levado tudo consigo embora.

Desmedidas

Eram dois cartoons. Eram dois bonitos, soltos na vida, cabelos cacheados, dourados cheios de fios zigzageando as cabeças pesadas. Sim, as cabeças pesavam aos dois... tinham esse senão: a cabeça não lhes estava em proporções com o resto do corpo. Era impressionante, as cabeças pareciam medir quase que o tamanho do resto do corpo inteiro. O desalinho provocava admiração a quem os via. As cabeças grandes e pesadas dificultavam o equilíbrio. Impossível manter a cabeça no lugar, de modo que as cabeças sempre estavam no mais das vezes quedadas ao chão sobre uma almofada confortável - para não machucar. Mas não ter a cabeça no lugar era sinônimo de solidão. Como não tinha a cabeça equilibrada sobre o pescoço não conseguiam manter um diálogo, uma comunicação. Não era possível aos dois entender-se nunca. Parecia pastelão de circo pobre com palhaços frágeis. Quando um estava com a cabeça equilibrada, estava o outro arrastando sua cabeça no chão. Era difícil manter as duas cabeças no lugar ao mesmo tempo. Era necessário um malabarismo tremendo de ambas as partes. Não era fácil conseguir. Manter as duas cabeças no lugar e além disso conversar... Impossível!
Tudo parecia muito difícil naquela situação. Olhavam-se sempre com ternura, mas, no fundo, sabiam: nunca poderiam dividir a mesma idéia juntos.
E até hoje continuam juntos e repetem-se as retóricas perguntas:
- Será que não? Porque não?

A lua me disse

De noite a lua me disse
- Há um perfume de jasmin no teu quintal.
E como se a lua mentisse
desconsiderei querer sentir o doce cheiro de flor.
Sabia que a tinhosa estava querendo apenas amolecer meu coração
com sua poesia brega, futil e boba (ou era como me soava?).

Uma faca

Havia.
Era uma faca amolada, grande, suntuosa...
Cortava bem e cortava tudo.
Talhe perfeito.
Havia nascido para aquilo, para ser faca....
Era essa sua vocação desde cedo.

Havia?
A faca morreu?
!

Para longe

Foram levados para longe, do lugar, e um do outro.
Os dois estavam fadados à isso...
Dormiriam... cada um em seu exílio.

Um grito

Não dava mais para argumentar... queria ganhar a discussão no grito, urrou nervoso, feroz e arisco qual um leão:

- Hurrrrrr!

Houve um breve silêncio. Respondi-lhe pouco depois:

- Quer uma água com açúcar? Um suco de maracujá? Um chá de camomila? Um doce? Me diga.

Silêncio sepulcral, como um grito suspenso no ar.

Quem estaria precisando de um chá? Quem responderia?