O que há pra hoje?

POESIA COLABORATIVA
Suor. Espaço de exercício poético e livre escrita...

sábado, 9 de julho de 2011

Lançamento na pista do suicida com medo da morte

Naquele dia X acordou com um mal humor horroroso. Levantou-se com dificuldade, o corpo todo lhe doía. O dia anterior tinha sido o mais difícil de sua vida. Vestiu um trapo qualquer. Não lavou o rosto. Não banhou-se. Não tomou café. Apenas bateu a porta e saiu. Parou no primeiro mercado. X ficou horas namorando uma faca Tramontina que estava na prateleira. Olhava o preço, um tanto salgado. Examinava a embalagem. Imaginava a faca em ação. É. X lembrou que o povo sempre dizia que as facas tramontina eram sempre muito boas. Lâminas fortes e afiadas. Talhe para qualquer natureza de carne. Fez. Comprou-a. Foi para a pista mais movimentada da cidade.
Na pista, executaria sua tão planejada e derradeira ação na trama da vida. Era um fim tágico, mas X havia anunciado tudo nos mínimos detalhes naquele dia anterior da maior danação.
Numa das calçadas, ao som dos motores dos carros que passavam, X tirou a faca da embalagem. Com carinho. Lentamente repassava cada movimento de seu plano funesto. Estava hipnotizado, sequer notava o movimento da pista, tinha olhos apenas para sua faca tramontina.
No momento exato do golpe fatal X titubeou. Respirou fundo. Chorou. Arrefeceu. Faltava-lhe coragem.
Triste com opróprio fracasso, com seu medo abissal, X viu, ao longe, uma grande carreta que se aproximava rapidamente.
Era isso.
Subiu no alambrado.
Lançou-se na pista.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Os paus de uma canoa

Com quantos Franciscos se cursa um rio?

E Com quantos Chicos se encanta uma Yolanda?

Com quantos Caetanos se acende uma chama?

Em quantos Gilbertos se decompõe a metafísica?

E o outro Gilberto, em quantas bossas se desfaz?

Em quantos Vinicius transbordam-se as morais?

Com quantas Clarices se invoca um espectro?

Com quantos Pixinguinhas se contém um choro?

Em quantas doses se embebeda uma dor?

Em quantas Cecílias se brotam primaveras?

Com quantos Quintanas se flutua a leveza?

Quantas pessoas dentro de um Pessoa?

Quantos Pessoas cabem numa pessoa?



quinta-feira, 7 de julho de 2011

A menina e a canção

A menina acordou inquieta. A noite fora-lhe um pesar sem medida. Sonhou a noite inteira com uma canção que se repetia... se repetia... se repetia... sempre repetia como uma onda do mar. Acordou desesperada. Foi até o computador. Antes de qualquer coisa. Selecionou a pasta Mônica Salmaso. Arquivo: Tonada Del Cabresteiro.mp3. Ouviu três vezes. Carecia voltar a sonhar.
A menina ganhou aquele dia do cão.
Tirou de letra.

Poema patético 2

Que barulho é esse lá fora?
É a felicidade cantando no pio
dos pardais cantadores, que inebriam os ouvidos fiéis.

Que barulho é esse lá fora?
É a dimensão que nos traga, o tempo que nos atravessa,
embalado pelo tiquetaquear fino da máquina de cuidar.

Que barulho é esse lá fora?
É o som leve e ritmado de minha respiração... e só.
Inspiro, expiro.

Que barulho é esse lá fora?
É o som dos estampidos no teclado da máquina...
do zunido que faz a geladeira para refrigerar...

Que barulho é esse?
Foi só o telefone que tocou.
Estridente e desagradável como nunca.


Ao modo Drummondiano

Qualquer coisa

Qualquer coisa arrumo minhas malas e vou-me embora...
ou abro o sorriso doce de escárnio...

Qualquer coisa grito, te ligo, te explico,
ou te conto uma coisa qualquer.

Qualquer coisa estou aqui, para qualquer coisa...

Qualquer coisa me dê a mão...

Qualquer coisa me procura... vou ter carinho em te atender...

Deixa estar...

Qualquer coisa a gente se lança de novo na vida...
cicatriza a ferida...
deixa nascer...

Qualquer coisa ficamos sem rumo,
procurando um bom prumo de um bom proceder...

Qualquer coisa... não sei... acho que a gente saberá o que fazer...

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Apenas isso...


Quero apenas desfrutar do teu tempo e atenção.

Quero apenas te dar um beijo.

Quero apenas usar teu corpo.

Quero apenas gastar teu dinheiro e decorar tua casa.

Quero apenas escolher com quais dos teus amigos você continuará se encontrando.

Quero poder apenas... fazê-lo esquecer tudo.

Apenas isso. Peço-lhe pouco. Basta que me de tudo.


A gangue

Ladrões como não existem outros,

Se diferenciam dos demais pelo método que empregam e pelo objeto do furto.

Ladrões do tempo.

Não de relógios, ampulhetas, cronômetros ou calendários

Furtam o tempo propriamente dito.

Essa coisa indissociável do espaço e que é palco de nossas vidas

(todas elas).


Ninguém nunca soube como procedem no furto,

mas o fato é que por vezes não dispõem de tempo algum,

estão duros, sem tempo para o que quer que seja

apertados e espremidos entre uma obrigação e outra.

E de repente,

não se sabe como

lá estão eles, riquíssimos

gozando de horas e horas

e tempos imensuráveis.

Boêmios.

Filhos de Baco.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Embriaguês

Queria embriagar-se.
E embriagou-se.
Ela embriagou-se! Num vinho tão leve e doce.
Vinho de sabor assim... é...
Pois bem.
Um vinho de sabor bucólico. Ficava encerrado numa garrafa amarelada não sei pelo quê.
Um rótulo poesia... que embalava a graça e a desgraçada, da danada da embriaguês.

A noite fora-lhe longa.
Cheia de hybris
de gracejos íntimos
de afagos fraternos
carinhos.

Ela e os outros embalados:
Cinestésicos amavam auditivos,
que amavam visuais,
que não amavam ninguém
ou amavam todo mundo.

(Pausa)

O despertador toca estridente.
Sobriedade!
Silêncio.
Escorreram, cada um a seu modo, embriagados.

domingo, 3 de julho de 2011

Quanto Carinho

- Quanto carinho!Quanto carinho!Quanto carinho é esse, benzinho?
- É só meu modo de sentir você.
- Vixe, mas é tão bom esse seu modo... aprendeu com quem, quem foi que te deu!?
- Ninguém me deu não. Nem é meu esse modo. É coisa que você inspira. Que você cativa.

sábado, 2 de julho de 2011

Fora do eixo

Não havia coluna nenhuma.
Era fora do eixo pela própria natureza.
Nada lhe dava termo, lhe dava equilíbrio ou chão.
Mas se mantinha ali... no eterno exercício de resistência...
sobrevivendo...
fora do eixo... fora do eixo... fora do eixo...
e cheio de reticências...
...