O que há pra hoje?

POESIA COLABORATIVA
Suor. Espaço de exercício poético e livre escrita...

segunda-feira, 13 de junho de 2011

TERRITÓRIOS E FRONTEIRAS

Seja você mesmo e deixe o outro

O outro é outra coisa mesmo

Coisa sem fim

Fora de ordem

Fora do eixo

Fora de órbita

Estou eu ou está o outro

Entre eu e outro só há desvão

Mas é isso. O outro é outra coisa mesmo.

O outro é outra coisa. (Enfático) Mesmo!

Minhas idéias apenas passam por mim...

Sou puro caminho, vereda plena, estrada nua, trilha de silêncio... Psiu!

É isso, se de fato existe alguma, essa é nossa fronteira.

Desidentidade



*



‘Por que você me olha como se procurasse alguma coisa?’, disse ele.

‘porque estou tentando me ver em você…’, respondi.

‘Ver o quê? Você já nem sabe quem você é’. Provocou. ‘Nem essa cara que você tem é sua.’,

— Nossa! Ele te disse isso?!

— Disse.

— E o que você fez?

— Quebrei ele todo na porrada!

— Sério?! E aí?

— Aí que ao olhar pra ele especado na parede, todo quebrado, não me vi mais eu. Só vi a minha desidentidade mil vezes multiplicada.



*








sábado, 11 de junho de 2011

Rascunho


Queria que ela fosse a obra completa,
mas sei que,
com toda a sinceridade,
estou diante do rascunho.

Ateliê vazio

O menino era artista do simulacro desde cedo,
desde cedo era assim... ator.
Cantava, dançava, rebojava ao som mais leve de atabaque, cuica ou carron.
Nasceu e desde que se deu por gente se pôs a criar o que chamava de "primma obra".
Criação que duraria o tempo de toda sua vida.
Passava os dias assim... ilhado numa sala de ensaio, trancado e criando só.
Cresceu: muleque, menino, rapaz, jovem, moço, homem, senhor, senhorzinho, iô.
O tempo não lhe fora suficiente.
Não conseguiu terminar de criar sua performance, de terminar sua obra prima.
Seu espetáculo morreu com seu corpo, sem estréia.
E hoje, o mundo inteiro tenta, descobrir o que o artista fazia trancado só a vida inteira em seu ateliê de criação.

Não se deu conta:
1. De que a arte é também um ofício, e de que a divisão artista artesão foi superada;
2. De que o teatro é uma arte coletiva;
3. De que a simplicidade e a falta de pretensão são bálsamos do artista;
4. De que o talento é um nome que deram às facilidades que alguns indivíduos tem mas que a disciplina e a rotina constroem com precisão em qualquer um que se permita;
5. De que a arte é a descrição de fotografias tiradas da vida quando ela mostra sua fragilidade ao baixar a guarda*.

E hoje, aquela sala, que já foi templo, é apenas um ateliê vazio.


* Tom Zé

sexta-feira, 10 de junho de 2011

(DES)Encantamento

Fiquei na frente do espelho,
dizendo pra ele meu nome,
com lágrimas e dores de cotovelos,
em apelos, apelos, apelos...
e minha imagem some.

Foi assim que perdi meu reflexo.
Uma desaparecensa só.

Mantras de venturas leves

Quero ser hermético e pulular...
Ser hermético e pulular...
Ser hermético e pulular...
Quero ser hermético e pulular...
Ser hermético e pulular...
Ser hermético e pulular...
Quero ser hermético e Multiplicar.
Ser hermético e pulular...
Ser hermético e pulular...
Quero ser hermético e transmutar
Ser hermético e pulular...
Ser hermético e pulular...
Ser hermético e pulular...

Ser hermético e pulular...

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Pedido de Arrebentação

Fiz o pedido.
Ficou puto, insandecido, violento como uma gata parida.
Saiu batendo todas as portas.
Senti uma dorzinha aguda qualquer com aquela porta arrebentação.
Quebrou tudo e foi-se embora pra sempre.
Se ele soubesse fazer... se ele pudesse satisfazer aquela minha vontadezinha qualquer...
Era um pedido pouco, pedido naco, nesguinha boba de pedido...
Eu só havia pedido pra ele me fazer carinhozinho por dentro*.

Captura de poesia cotidiana de Évelin Correa

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Felicidade enigmática

A - Quem é ela?
B - Não sei, uma moça qualquer que anda por aí.
A - Mas você a conhece?
B - Não... não... conheço de ver passar... de ouvir falar... um conhecimento assim assim.
A - Ela tem um ar enigmático e feliz no olhar, não tem?
(B não responde. Silêncio sepulcral)
B - A felicidade dela me incomoda!

Delicada Intervenção Urbana 01

(Na praça da cidade num dia de sol)
Três homens, cada um porta seu próprio guarda-chuva, vestidos de terno e gravata, usam um grande headfone nos ouvidos, óculos escuros. Andam pela praça, param, congelam, podem andar em coro, executar pequenas células de movimento, coreografias inteiras.
Uma mulher, de vestido vermelho rodado, cabelos longos e cacheados e soltos, passeia pela praça. Ela está embriagada de poesia, corre toda praça lendo Wally Salomão. Ela, lendo, persegue os homens. Eles, indiferentes, continuam entre si, surdos, surdos. Eles dançam, correm, param, sentam, deitam, rodam, roçam, brincam apenas entre eles. Eles não dispensam um naco de atenção à ela.

Menino Miguel

O home é bicho do mato, bicho arisco, que trais cunsigo uma querência de nunca cessar. O home é bicho arriscoso é bicho queredor. Ele quer a rima certa, a midida mais justa, o canto furtuito passarinheiro, o acorde perfeito maior... I tudo isso pra quê, minha gente? Só para poder gritar pro mundo "EU QUERO"? Só isso? Então é isso? Apois que no final de tudo, tudo que é vivo morre, e nois volta tudo praquilo que nois era, junto da terra, agarrado nela, sintindo a terra resvalar e iscorrer nas nossa boca, nos nosso ouvido. Tem carência de tanta querência não. Tem não. Querer pricisa de muita ambição de nois. Sonhar é muito mais milhô. Sonhar e fazer aconticer os sonhos. Isso é que é. E se o sonho for grande, gordo, luzido, deixar ele ser. Sem querer. Sem a maldade da querência, da ambição.