O que há pra hoje?

POESIA COLABORATIVA
Suor. Espaço de exercício poético e livre escrita...

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Práxis Corrompida: Passo a Passo

Pensar no incorruptivel
me fez antes conceber a corrupção...

Passo 01: o mundo, a vida, a experiência.
Passo 02: Teorização sobre a corrupção.
Passo 03: Perceber como a corrupção se alastra e contamina.
Passo 04: Perceber-se.
Passo 05: Conceber a não incorrupção.
Passo 06: Permitir-se ou fazer escolhas.
Passo 07 (facultativo): Acreditar na incorrupção.

domingo, 24 de abril de 2011

Sou pipa

Pedi um bocadinho de leveza,
sem querer ou por bondade
derramou toda sobre mim...
e agora fico pintando as
tardes com o perfume dos carinhos
que merejam dos dedos dela!!

Hoje, sou pipa passarinheira de rabiola solta, parada no ar.

Post it

Para não esquecer:
Assistir Tom Zé sempre.
Ouvir os Doces Bárbaros sempre.
Ler Waly Salomão.
Sentir Oiticica.
Tocar um violão.
Ler poesia de fogo com os amigos
E ensaiar a revolução
Encenando radicalidades.

O tempo não tem pudor - aquilo que o tempo é.

O mundo não tem o menor pudor.
Vive por aí, de pernas abertas, obsceno, lascivo, arreganhado sem a dignidade de uma puta.
O mundo é vil... torpe...
Mas a puta? A puta merece aplauso redenção.

Me disse outro dia Gilberto Gil - guru dos tempos - numa feijoada ao violão:
O tempo não tem pudor. Não tem o mínimo de polidez, esse safado.
O tempo é vil...
Não preciso do tempo. Mas ele me fita com um sorriso doce, dengoso e erótico nos lábios.
Quer me comer, me atravessar.
O tempo é uma puta.
Vive de pernas abertas por aí. E cobra caro.
Cobra muito caro pelas seçoes de atravessamento e penetração.

Não quero o tempo enquanto peso.
Não quero o tempo enquanto meço.
Não quero o tempo me apontando o dedo para sua balança.
Pronto pra fazer a cobrança, querendo me coagir, enlouquecer.

Respeitai os tempos!
Respeitai meus tempos!
Os tempo de só ser.

E há sempre um enigma no ar, uma verdade para ser dita, uma meia-verdade escondida.
E o princípio da verdade? Não há.
No tempo só há simulacro de revolução.
É o máximo que conseguimos.

Por fim...
O tempo deixou-me plantado aqui, aqui onde o tempo é outro, onde o tempo é oco, onde o tempo é vão...
O presente do passado, o presente do presente, o presente do futuro.
Decidi: "Pronto! Me coloco à disposição, à disposição do tempo para ser sua esposa, amante, mulher. Sempre aberta, com pernas de virgem"...
Eis meu tempo, um tempo narrativo.
Um tempo doido pra deixar meu verbo rebolar.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Norma - dançarina ou performer

Norma era menina, pobre, negra, sul-americana, brasileira, nordestina, baiana do interior da Bahia.
Norma ouviu dizer que vivia no terceiro mundo.
Ficou preocupada.
Mas também ouviu Lenine dizer que a Terra toda era terceiro mundo, afinal era o terceiro planeta do sistema solar.
E acalmou-se.

A Norma era do mundo.
O mundo é grande e pequeno, como para Drummond.
E a Norma sabia que no mundo tudo era lícito.

Pra Norma, tudo no mundo lhe dizia respeito.
Se emocionava com a florzinha 11 horas do jardim da pracinha de sua cidadezinha do interior.
Se emocionava com a Sinfonia nº9 de Beethoven.
Se emocionava com a sapiência de sua avó analfabeta, dona de ervas, garrafadas e chás.
Se emocionava com a Edunia, bioarte de Eduardo Kac.
Se emocionava com os meninos com fome na rua.
Se emocionava assim: sem preconceitos, fora do tom, sem melodia.
A coerência dos rótulos parecia não fazer o menor sentido.

Norma virou bailarina.
Seu sonho era dançar fora, sair do país, representar o Brasil.

O governo da Alemanha havia proibido a dança em praça pública.
Norma viajou para um protesto.
Dançou em Frankfurt, em praça pública, rodeada de jovens.
Contra proibições e rótulos. Contra a determinação de que o povo não dançasse.
E Norma Dançou, Dançou muito. Dançou até morrer.
Descobriu-se performer no último dia de vida.
Sua dança era política, era protesto.

A Norma morreu feliz.
Sua missão era essa:
Fazer dançar preconceitos, tabus e bobas proibições.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Guarda-roupa

Aqui jaz meus humildes trapos
aqueles que cobrem a vergonha
e me enchem de pudor
Aqui jaz as capas
as máscaras
O que não sou.

domingo, 17 de abril de 2011

Domingo, dia de coerências

Domingo é dia morno, dia que antecipa-se em segunda indesejada; muito marasmo e pouca ação. É dia que mesmo com sol no zênite, cores das mais diversas matizes a cintilar nas pupilas, pouco inspira uma poesia, boba que seja, cheia de gracejo e destemperada de inteção.

Imagine domingo de céu cor chumbo, chuva fina riscando o horizonte e ar de melancolia contaminando o ar do apartamento que a nem rua permite avistar.

Nesse dia sorumbático há pertubação pelo que permanece e nada muda; na sala um objeto falante revira a memória afetiva do "macarrão com molho inconsistente", frango assado e farofa dos almoços de outrora onde o que mais recorria era a abstração de tanta ironia e falsos sorrisos amarelos.

Penso que são domingos de olhar cabreiro e de laços frouxos que tento me distanciar...ressignificando o que dissera um ventríloco através dessa coisa falante: domingo é dia de escombro e esperança em construção!

Domingo é dia de coerências com as pequenas expectativas da vida. E a coerência não faz o menor sentido.

Aprendendo com Manoel de Barros: o poema é antes de tudo um inutensílio

Quero acordar, tarde, e preparar uma vitamina de poemas num dia de domingo.

Na segunda, dia carpindo de trabalho, calçarei meu poema para andar, durante todo o dia. O velho par de poemas surrados do todo-dia.

Durante o sol a pino, do meio dia, brasa sertaneja avermelhada, de uma terça feira santa, abrirei meu poema para guardar do calor minha pele.

Quarta, dia de cansaço suado, vou banhar. Lavarei com as águas do poema, com sabonete, vinho e vinagre, todos os meus orifícios.

Já na quinta que é dia de esperança, ao lado de meu poema amante, saborearei, degustarei, molhado de salivas, uma fatia de poema e um petit-gateau. Hum!

Na sexta-feira?
Na sexta-feira vou à forra. Lascivo, lamberei meu poema-falo, meu poema-entranha. Me darei de comer.

(noutro tom)
E no sábado, amanhecido triste, padecerei tísico, seco, amargurado como um poema velho, insandecido. Depois de morto, de novo vivo, darei à luz, de meu próprio ventre a um poema, posto que ninguém é pai de um poema sem padecer, sem antes de tudo morrer.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Viu-me

A andar na rua

Andar assim como quem come

O pó

A paisagem

A maçã dos tempos

Não desviou o garfo dos ombros

Por crer-me pouca demais pra tanto prato:


Inaniu-se.


Viu-me

A andar na rua

Andar como quem chove

Molhando os olhos

Os ocos centros

Dos tantos mundos

Não tomou do guarda-chuva

Por crer-me sol demais pra tanta água:


Afogou-se.


Viu-me

A andar assim na rua

Andar como quem se despe

As glândulas inchadas

em cada mama,

dez mil ninhadas penduradas

Não escusou-se

E a despeito da barriga farta:


(M)Amou-me.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Todo Dia

É preciso ser um felino de mil vidas.

Morro hoje,
renasço amanhã.
Morro hoje,
renasço amanhã.
Uma eterna e crepuscular ressurreição.

Morro de mortes inacabadas e descabidas.
Cada dia oferece sua dose letal diária.
nas pequenas coisas, nos mínimos gestos, no ordinário caminho do cotidiano...
Eis a severina morte e vida diária:
a. a vida é grande;
b. e elefante se come aos pedaços.

Morro hoje,
renasço amanhã.
Morro hoje,
renasço amanhã.
Uma eterna e crepuscular ressurreição.

Até não sei quando,
ou quando não sei:
Descansarei em paz?