O que há pra hoje?

POESIA COLABORATIVA
Suor. Espaço de exercício poético e livre escrita...

sábado, 9 de abril de 2011

Conversa de meninos

Um menino: Te escrevi uma carta de amor e de melancolia. Modo que tenho de dizer palavras que possam dizer o que sinto sem dispersar um só fonema.
Outro menino: Mas hoje não vai ter conversa?
Um menino: A carta que lhe escrevi lhe dirá tudo que lhe diria hoje a noite - e com certeza melhor.
Outro menino: Mas não há de haver o beijo derradeiro, beijo último, consciente de seu ato, do fato do fim?
Um menino: Leia a carta. Eis aí nosso último beijo. Durma com os sonhos, acorde cedo para realizá-los. E estamos conversados.
(Um menino sai. Outro menino passa a ler a carta. Choro. um som. Escuridão)

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Há tantos pássaros
Mortos
Pelo caminho
Que me surpreende
ser ainda possível
que alguns voem.

Conto-vos que ontem... - (SOBRE JOGO ESCOLHAS DE FINAIS)

Encontrei uma margarida
Cortada, descartada
no chão.

Apesar dos dentes branquinhos
que espalhavam o sorriso
ao redor da cabeça

A pessoa que a desprezou
não viu
Nem ninguém mais viu

que antes de morrer
ela sorriu
em bem-me-quer.

(PRIMEIRO FIM)

ou tratar de plantas ninguém sabia
ou faltou disposição

eu que sou esperta
fiz dela uma muda

que há de florescer
e florir meu verão

(SEGUNDO FIM)

É possível escolher qualquer um dos finais.


quinta-feira, 7 de abril de 2011

Fragmento de uma dor-de-cotovelo bem resolvida

Foi lindo te ver diante de mim. Aquela vastidão toda, iluminado, grande. E eu vi um sol em você, e um céu sem limite reto de horizonte. E pensei comigo mesma: vou voar! Impulsiva que sou, alcei-me. Mas olha o meu espanto: eu não subi, eu caí, caí. Só que não caí por muito tempo porque você é raso, Zé. Você não é um céu, é uma poça. Uma pocinha de nada. De nada mesmo. Me machuquei e agora ando com o ridículo de uma ferida aberta na testa, pra todo mundo ver. Mas, admito Zé, há uma coisa que me consola: tanto você, quanto a minha ferida, tendem a secar.

Amortização

Ah não, pára. Nem tudo o que não me mata me fortalece. Há coisas que só matam um pouquinho de cada vez e vai tirando esse brilho da pele. É assim que a gente vai morrendo. Mas não é contra essa mortezinha besta que me acomete de batata em batata que eu luto. Eu luto é contra o cadáver que vou me tornando. Ele fede.

Das identidades

Ela me cantou uma frase que falava de correntes e de mundos, e eu disse: Que linda! E ela: é Marx. Eu sou marxista. Ahh, respondi, "eu não sou nada. Não posso querer ser nada, à parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo." E ela estupefacta. É Pessoa, eu disse, é que eu sou pessoa. Mesmo.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Saudade pôs um samba em teu lugar

Imitação de Carlos Lyra e Bôscoli.

Benzinho,
queria poder por um samba em teu lugar...
Mas pra que haja samba há de haver saudade e, além de tudo, é preciso compor um bom refrão.
Refrão de samba marcado, de baque virado, de arrumação.

Fazer um samba triste.
Um samba pra marcar e matar essa tristeza, de compasso torto sempre.
Pro coração dançar contigo uma última batucada,
pra arrefecer o ódio dessa bossa nossa, bossa amarrada,
pra fazer o corpo rebojar, andar enviesado como nas chulas de roda,
rodar, rodar, rodar, embriagado e farto de tanta dança.
Mas pra tudo isso, benzinho, é preciso compor outro refrão.

Benzinho,
queria poder por um samba em teu lugar...
um samba-canção, um samba enredo, exaltação,
um samba corrido, samba de partido alto, samba de terreiro.
Um samba que fizesse sambar meu peito, que brecasse o samba e o peito do jeito que o diabo quer.
E depois ser só leveza, leveza de sambinha, de bamba, leveza de um samba qualquer.
Mas pra tudo isso é preciso compor outro refrão, benzinho.

Juro, te prometo um samba novo, um samba triste.
Um samba purgador da alma, que nos re-alinhe o pulso.
Mas de antemão aviso, benzinho: não sou nenhum João Gilberto.

domingo, 3 de abril de 2011

Mais uma transa frouxa?

O Homem acordou aquele dia um pouco diferente. Olhou para o parceiro ao lado da cama. Parecia o mesmo de tantos anos atrás. Será que era? As fotografias diriam que sim mas ele tinha dúvidas.
Enfadado fitou o parceiro ainda dormindo o sono denso e delicado do dia que já estava a pino depois de uma alvorada lenta.
Levantou-se, abriu uma garrafa de vinho, tomou todo sumo da videira e quebrou a última taça de cristal ainda cheia, as outras tinham sido igualmente quebradas por descuido ou por tédio.
Voltou a observar o parceiro que continuava dormindo.Quando o pênis respondeu a um chamado íntimo... Ali, sem acordar o parceiro o homem se excitou às últimas consequencias. Transou uma transa louca e embriagada como nunca e nem se preocupou se havia o mesmo gozo no corpo do outro. Era uma transa egoísta, como a maioria, apenas para satisfazer os desejos do Homem.
E foi no climax orgiástico que ejaculou um rio inteiro de gozo. E por fim... o Homem morreu em plena cama. Uma morte feliz, com sorriso nos lábios.

Comércio poético

Vendo Rimbaud pela janela. dando-lhe um último adeus, sob a luz amarelada do sol.
Vendo todas os meus versos de Rimbaud.
Amores vermelhos não me cabem mais. Careço de carícias azuis, carícias de lagoa.
E justo por isso:
Vendo todas os meus versos de Rimbaud.


sábado, 2 de abril de 2011

SOBRE CONSULTAR ORÁCULOS

(Desesperado, no meio da noite, Eu procura bálsamo para suas inquietações. Liga o computador para acessar o templo.)

Eu: Qual é a cor da minha camisa?

Google: O sobrenatural existe. Ele está à nossa volta!

Eu: E eu posso acessá-lo?

Google: Não. Meu perfil existe mas nem eu posso acessá-lo. Sou intangígel, inatingível, imaculado.

Eu: E como acreditar?

Google: Acreditar? Ora, Como acredita-se na justiça.

Eu: (desafiante) Bem, então eu prefiro dividir felicidade, dizer que não valeu a pena acreditar na Justiça, nem fazer consultas à oráculos.

Google: E Por Que Não? Cante e ouça com seus amigos! E que não haja mais imprecisão a respeito desse assunto.